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ENSINAMENTOS DE LAMA GANGCHEN
RINPOCHE NO SÍTIO VIDA DE CLARA LUZ em tibetano, traduzidos
para o português por Lama Michel Rinpoche, 12 de NOVEMBRO
DE 2006.
Estive pela primeira vez no Brasil há dezenove anos. As atividades
no Brasil começaram, principalmente, com o Centro de Dharma
em 1988. Durante esse tempo, muitas coisas aconteceram, muitas coisas
foram criadas e realizadas.
Tudo o que foi realizado nesses dezoito anos não dependeu
apenas de minhas palestras, ensinamentos, ou do meu esforço.
Mas, principalmente, porque houve muitos amigos, muitas pessoas
que colocaram muito esforço durante todos esses anos e, trabalhando
juntas, fizeram ações concretas.
Se olharmos mais a fundo, não foi simplesmente o fato de
terem trabalhado juntas e colocado esforço. Houve uma harmonia
e motivação mais profunda no trabalho realizado durante
esses anos.
Não é comum, ao dizer uma coisa para alguém,
que ela o aceite de imediato, com entendimento e compreensão.
Isso não é nada fácil de acontecer.
Na primeira vez em que estive no Brasil, quando fui a Campos do
Jordão com um pequeno grupo de pessoas para um retiro, a
Bel logo me disse: "Tenho um terreno aqui, onde poderíamos
fazer juntos alguma coisa..." Ela já estava colocando
a idéia de construir alguma coisa como o Sítio Vida
de Clara Luz.
Podemos chamar isso de karma, algo que já havia sido criado
no passado e que naquele momento estava "acordando". Ou
seja, algo com uma "mesma intenção" que
estava despertando. São causas sutis que já estavam
dentro de sua mente sutil e que naquele momento haviam acordado.
Podemos chamar essas idéias e sentimentos de imprints positivos,
marcas positivas no contínuo mental que estavam dormindo
e naquele momento amadureceram e acordaram. Pode-se dizer também
que foi uma interdependência positiva que se criou naquele
momento.
Poderíamos explicar isso de uma forma mais longa se entrássemos
nos detalhes de quais eram essas causas sutis. Mas esse seria um
assunto muito longo e agora não é o caso de entrarmos
nesses detalhes. O importante é que, do ponto de vista da
ciência interior, foram criadas muitas formas diferentes de
causas e condições para que tudo o que aconteceu até
hoje pudesse ter ocorrido.
Neste sentido, há dezenove anos, quando estive no Brasil
pela primeira vez, já se criaram condições
de uma interdependência positiva. Depois que fundamos o Centro
de Dharma da Paz, que existe até hoje, Bel começou
a falar durante muito tempo sobre o seu projeto do Vida de Clara
Luz. Até que então, em 2001, o sítio foi comprado
e várias pessoas começaram a vir trabalhar aqui com
a terra junto com Pete, que trouxe a Permacultura. Assim, gradualmente,
foi-se gerando a interdependência positiva nesse local.
Em 2002, foram trazidas para cá as estátuas de Borobudur
da Indonésia. Há uma forte interdependência
positiva nisso, porque os ensinamentos budistas sobre a mente de
grande amor altruísta, a Bodhichitta, chegaram ao Tibete
através da Indonésia. Eles foram trazidos ao Tibete
por um grande mestre chamado Atisha, que recebeu esses ensinamentos
na Indonésia.
Já que não pudemos trazer mestres da Indonésia
para cá, então trouxemos suas estátuas: os
Cinco Curadores Supremos, o Buddha da Compaixão Tchenrezig,
o mandala e a stupa de Borobudur.
Trazer essas estátuas sagradas teve um significado muito
especial e gerou uma grande interdependência positiva.
Depois disso, foram construídas aqui as diferentes instalações:
o gompa, a hospedaria, o refeitório, as casas de moradia.
Durante esse tempo, houve dificuldades, porque problemas sempre
existem, mas de modo geral tudo aconteceu de uma forma suave. A
cada dificuldade que surgiu, aprendeu-se uma nova lição
e assim todos se tornaram cada vez mais fortes.
Desde a criação deste local, há a idéia
de poder acolher pacientes em fase terminal. No entanto, até
agora a lei brasileira não apoiava os cuidados paliativos.
Mas como a interdependência positiva continua sendo criada,
recentemente foi aprovada uma lei que permite que um paciente não
tenha necessariamente que ir para uma UTI. (todos batem palmas).
Isso é algo que tem sido esperado pelo Vida de Clara Luz
há muito tempo. No momento em que as condições
vão se criando de um lado, do outro lado acontece algo que
aparentemente não está diretamente interligado...
Por exemplo, o fato do governo ter criado esta lei pode ter a ver
com o que tem sido feito aqui?
Mas se observarmos bem, apesar de uma coisa não estar ligada
diretamente com a outra, elas estão conectadas pela interdependência
positiva.
Desta forma, todo o trabalho que tem sido feito aqui, como os Dias
de Plantio Coletivo, vai conectando uma coisa positiva a outra.
Outro exemplo acaba de ser criado no Estado de São Paulo:
um fórum permanente das religiões, um fórum
inter-religioso, junto à Secretaria da Justiça. Isso
é algo que começamos a fazer desde 1995, promovendo
vários encontros inter-religiosos, como aqueles no Clube
Hebraica.
Plantamos as sementes no passado e o que aconteceu agora não
foi através de nossa ação direta, foi a partir
da ação de outras pessoas, neste caso do governo do
Estado de São Paulo, mas as nossas causas estão lá.
As coisas não estão completamente não-relacionadas,
ao contrário.
É verdadeiramente incrível observar como as coisas
estão relacionadas umas com as outras, como tudo acontece
com certa sincronia, de forma interdependente. Trata-se de um "movimento
telepático", um movimento natural que não somos
capazes de perceber.
O nome deste local é "Vida de Clara Luz". Qual
é o significado, qual é o objetivo do Vida de Clara
Luz? Isso não é uma coisa simples, é uma questão
muito grande que explicarei aos poucos.
O Vida de Clara Luz existe dentro de várias condições
muito especiais que se criaram. Entre elas, o fato de eu (Lama Michel)
ter nascido no Brasil e de termos um mestre, Lama Gangchen, que
não é como muitos mestres que aparecem uma vez, fazem
uma grande palestra para mil pessoas e depois nunca mais ninguém
o vê. No máximo, pode-se adquirir um livro ou um DVD.
Rinpoche sempre teve uma abordagem diferente: de estar junto, viver
a vida junto, passar tanto os momentos difíceis como os bons
juntos. Quando temos de chorar, choramos juntos; se temos que discutir,
discutimos juntos, assim como compartilhamos os momentos de felicidade.
Desta forma, estamos juntos em todos os momentos, aprendendo o caminho
espiritual.
Rinpoche não é um mestre de "oi e tchau"
ou "fiquem com seus problemas que eu não tenho nada
ver com isso, pois já disse o que eu tinha que dizer."
Ao contrário, ele está sempre perto de nós,
a cada momento, em cada dificuldade. Sempre foi assim e sempre será.
Afinal, sempre temos interferências, dificuldades que temos
de saber superar.
Este é um projeto muito importante e com um significado muito
profundo. Mas há pessoas que, pela própria ignorância,
pensam apenas em si próprias e não vêem a grandiosidade
deste projeto, por isso criam interferências negativas. Elas
estão apenas pensando em resolver seu pequeno problema, seja
financeiro ou de qualquer outro tipo.
Há ainda aqueles que pensam: "Olha aquele bando de
gente rica fazendo sei lá o quê". Guiados pela
própria ignorância, não chegam a compreender
o verdadeiro significado e benefício do que está sendo
feito aqui. Por isso, criam interferências e dificuldades
que devem ser superadas. A Bel e o Pete colocaram toda a energia
deles aqui, dinheiro, tempo. Por isso, diante das dificuldades não
devem jamais afirmar "não podemos fazer mais nada".
De fato, diante de muitas interferências negativas, eles
podem chegar ao ponto de querer dizer: "Quer saber de uma coisa?
Deixa pra lá tudo isso, vou cuidar da minha vida, não
vou continuar fazendo tudo isso". Mas não pode ser assim,
o esforço deles tem que continuar. Por isso, é importante
que todos juntos se mantenham estimulados de forma pura - com emoção
pura, com um sentimento positivo - para que tudo aqui seja sempre
realizado da melhor forma possível. Isso requer o envolvimento
de todos.
Buddha buscou a iluminação com o objetivo de abandonar
completamente todos os venenos mentais, de desenvolver ao máximo
seu próprio potencial e suas qualidades para adquirir a percepção
correta de todos os fenômenos. Quando Ele estava prestes a
atingir a Iluminação, abandonou qualquer coisa que
lhe tirasse sua atenção, como os prazeres do corpo,
e dedicou-se apenas à concentração de sua mente.
Nesse momento, ocorreram várias interferências: seres
que não entendiam Sua grandiosidade começaram a criar
problemas para tirá-lo de seu estado de meditação
por meio de ações violentas. Mesmo assim, Buddha nunca
perdia seu objetivo e continuava meditando. Houve também
aqueles que tentaram distraí-lo por meio de objetos de desejo,
emanando mulheres muito bonitas para seduzi-lo de todas as formas:
elas cantavam, dançavam, tocavam instrumentos à Sua
frente, mas, mesmo assim, Buddha sempre continuava focado em seu
objetivo de uma maneira muito clara e precisa.
Até que Seu próprio filho veio até ele pedindo:
"Volte para casa, deixe de lado tudo isso...". Mas Buddha
não deu a menor importância, continuou meditando de
modo muito seguro. Da mesma forma, devemos aprender a não
desanimar diante de qualquer forma de dificuldade ou interferência.
Ao contrário, devemos criar mais energia, mais força,
para realizar nosso objetivo.
Se observarmos a dedicação de todos aqui, da Bel,
do Pete, e de todos os demais, mesmo diante de violências
e de dificuldades maiores todos têm continuado com seus esforços
dizendo, "a gente vai em frente, a gente não desanima".
Se não reconhecermos que esta motivação trata-se
de uma mente pura, onde mais podemos encontrá-la?
Alguém pode dizer, "eles não têm motivação
pura". Por quê? Por que estão dormindo? Por que
estão cansados? Não existe uma boa uma razão,
uma boa desculpa para dizer que essa não seja uma motivação
pura.
Isso vale para qualquer um de vocês que, diante de dificuldades,
ainda assim tenha a motivação pura de querer continuar,
e não apenas de continuar, mas de continuar e colocar esforço.
Isso é uma motivação pura.
Por exemplo, a Fernanda, minha irmã, que está aqui
hoje. É muito difícil uma jovem ter essa atitude de
estar aqui com calma, ouvindo. Mas, mesmo assim, ela está
aqui ouvindo com o coração aberto. Isso também
é um exemplo dessa motivação pura.
Uma outra dificuldade que encontramos, não só no
Brasil, mas em todo o Ocidente, advém do fato de que aquilo
que é proposto pelo Vida de Clara Luz não fazer parte
da nossa cultura.
No Ocidente, quando uma pessoa está numa fase terminal,
vai direto para o hospital. Não existe a cultura de cuidar,
tal como a proposta do Vida de Clara Luz.
Por não fazer parte da cultura, surge uma grande dificuldade
em se fazer algo, aparecem medos, dúvidas, e tudo isso acaba
afastando algumas pessoas.
Para trabalhar em algo que não faz parte da cultura é
preciso muita coragem. A Bel teve essa grande coragem, de acreditar
em algo, de fazer algo que está completamente fora do contexto
cultural onde nos encontramos.
É possível que, muitas vezes, as pessoas percebam
que se trata de algo positivo, significativo, e queiram participar.
Mas ao se aproximarem, não se sintam à vontade, porque
não é exatamente aquilo a que estão acostumadas.
Por um lado querem ajudar, mas, por outro, não sabem exatamente
como. Isso é porque não faz parte da própria
cultura, não é por nenhuma outra razão.
É importante conseguir superar essas barreiras culturais.
O Brasil é considerado um país cristão, mas
embora a cultura da religião cristã tenha chegado
ao Brasil há muitos e muitos anos, ela não é
original do Brasil. A cultura espiritual original do Brasil era
a cultura xamânica. No entanto, hoje em dia, o cristianismo
é aceito como se fosse a verdadeira cultura espiritual do
Brasil, mas, na verdade, não é. Da mesma forma, não
há nenhuma razão para ver como algo estranho e distante
uma cultura diferente como é a cultura budista. O budismo
se adapta a qualquer profissão, a qualquer estilo de vida.
Originalmente, o budismo não era uma religião. Buddha
quis compartilhar a própria experiência e o modo como
chegar a essa experiência ensinando a não-violência.
Na Índia, existiam muitas religiões baseadas em violência,
que sacrificavam animais, faziam oferendas de animais, etc. Isso
era muito difundido na Índia naquela época. A cultural
local era a cultura da religião, por isso, quando Buddha
ensinou a não-violência, as pessoas criaram uma fé
religiosa em Buddha e no que Ele dizia. A partir daí, criou-se
uma religião, pois tratava-se de uma cultura baseada em religiões.
Inicialmente, Buddha não tinha a intenção
de criar uma religião. O que Ele fez foi compartilhar a própria
experiência e como chegar a essa experiência, que na
verdade era uma "pesquisa interior". Buddha foi um cientista
do mundo interior.
A não violência, da forma que foi exposta por Buddha,
a interdependência de todos os fenômenos e o fato de
que em todos os fenômenos existe o espaço, que o espaço
está presente em tudo, são alguns dos temas explicados
por Buddha que até então nenhuma outra religião
havia citado. Como Buddha dizia coisas incríveis, as pessoas
logo geravam fé nele e passaram a chamá-lo de "Ó
Grande Buddha". Desta forma, acabaram criando uma fé
"religiosa", e a partir disso, o budismo surgiu como uma
religião.
Se analisarmos bem, perceberemos que o budismo não é
uma religião, mas sim um conjunto de idéias positivas
e construtivas para esse mundo. Apesar das idéias de Buddha
serem o resultado de suas próprias experiências, estão
sempre de acordo com uma visão cientifica.
Qualquer pessoa que analisar os ensinamentos de Buddha com uma
visão cientifica correta não vai encontrar contradição.
Einstein já dizia que se alguma religião poderia acompanhar
o desenvolvimento da ciência, seria o Budismo. Hoje em dia,
estão cada vez mais descobrindo novas coisas em relação
a física quântica que Buddha já havia dito.
Por isso, os cientistas hoje em dia estão dando grande valor
ao Budismo e investigando o que Buddha concluiu no passado. Neste
sentido, Buddha foi, verdadeiramente, um cientista interior.
Buddha criou a comunidade espiritual, conhecida por Sangha. Ela
funcionava de forma completamente democrática. Há
2.500 anos, esta foi a primeira forma de democracia.
Buddha nunca tomava uma decisão sozinho. Primeiro, o problema
era compartilhado com a comunidade espiritual, e todos tomavam a
decisão juntos. Buddha nunca foi autoritário na forma
de ensinar, nunca tentou impor a sua visão.
Por exemplo, quando Buddha ensinou sobre a visão correta
da realidade, a vacuidade. Primeiro, Ele deu vários ensinamentos
para seus discípulos e depois, no momento em que estava no
estado de onisciência gerado pela meditação
unidirecionada na realidade dos fenômenos, ou seja, na visão
perfeita da realidade, ele indiretamente incentivou seus principais
discípulos, Shariputra e Tchenrezig, a dialogarem sobre a
experiência deles em relação à vacuidade.
Dessa maneira, Buddha analisou se o que eles estavam discutindo
era ou não correto. E, depois, quando terminaram essa discussão,
Buddha despertou de seu estado de profunda meditação
e disse: "É assim mesmo, o que vocês disseram
é correto." Essa é a origem do conhecido Sutra
do Coração.
Desta forma, Buddha dava o espaço para a opinião
de seus discípulos em seus ensinamentos. Afinal, se eles
não tivessem tido a verdadeira compreensão de seus
ensinamentos, não poderiam dar continuidade à linhagem
de realizações após sua morte.
Em junho de 2003, Lama Gangchen trouxe as Sagradas Relíquias
de Buddha Shakyamuni para abençoar este local. Essas Relíquias
são 12 pedaços de ossos do próprio Buddha Shakyamuni.
Como elas chegaram até aqui? Depois de sua morte (no ano
486 a.C.) Buddha foi cremado. Suas cinzas juntamente com esses ossos
remanescentes foram colocadas em oito stupas (relicários),
todos feitos exatamente da mesma forma. Após dois séculos,
Rei Ashoka, um imperador que muito contribuiu para o desenvolvimento
do budismo na Índia, abriu sete dessas stupas. Ao ver que
todas elas encontravam-se da mesma maneira, deixou a oitava intacta
e distribuiu as demais entre os reinados budistas que haviam na
época, como a Tailândia, a Birmânia e Sri Lanka.
Estas relíquias foram reencontradas quando os templos destes
países passaram por reformas. Dentro dos relicários
estava escrito que elas eram as cinzas de Buddha e como foram distribuídas
desta forma rei Ashoka.
Ao todo foram reunidos 12 pedacinhos de ossos. Uma vez, cuidadosamente
analisados e comprovado que eles eram, de fato, da época
de Buddha, o governo da Tailândia presenteou as relíquias
às Nações Unidas como uma forma de oferecê-las
para todos os países do mundo, e, também, como um
símbolo de paz, em agradecimento pelo reconhecimento da ONU
pelo dia do Vesak - quando se comemora o nascimento, iluminação
e morte de Buddha.
Antes que as relíquias fossem colocadas de uma forma permanente
nas Nações Unidas, elas visitaram, como uma peregrinação,
31 paises, entre dos quais 10 foram eventos organizados por nós.
Por isso, quando as relíquias estavam no Brasil, foi possível
trazê-las até aqui, ao Sítio Vida de Clara Luz.
E o que isso quer dizer? Quer dizer que essa terra, aqui onde estamos
agora, foi abençoada por Buddha. É como se Buddha
tivesse estado aqui e abençoado essa terra. Não estamos
falando de ter fé cega sobre esta bênção,
mas sim de algo que podemos provar até tendo uma atitude
científica. Um dia, será possível provar a
existência dessas bênçãos.
Tanto o recipiente, o meio ambiente, como o seu conteúdo,
foram abençoados. Na verdade, o recipiente o que é?
É o meio ambiente. O Rinpoche está dizendo que mesmo
a terra aqui é abençoada. Por isso, as pessoas, os
seres, os animais que vierem a este lugar também serão
abençoados. Todos os pacientes e pessoas que trabalharem
e visitarem este local serão abençoados. E o que essas
bênçãos trazem? Elas nos ajudam em nossa transformação
interior positiva. Isso é algo muito importante e que vai
continuar para sempre. Desta forma, podemos dizer que é como
se essa terra em si mesma tivesse se transformado numa relíquia.
As relíquias de Buddha foram trazidas para cá em
segredo, porque naquele momento não era possível fazê-lo
de forma aberta. Mas nesse momento não há mais porque
manter o fato em segredo.
Por quê foram trazidas para cá? Porque Lama Michel
e eu queremos sempre dar o melhor para o Vida de Clara Luz.
Todos os anos, eu venho para cá, faço as rezas, mantras,
abençôo este local. Mas, com a visita das relíquias,
tive a oportunidade de trazer a presença de Buddha com Seu
próprio corpo. As relíquias de Buddha não são
apenas pedacinhos de ossos. Desta forma, foi como se o próprio
Buddha tivesse vindo a este local e colocado seus próprios
pés nesta terra. Isso é algo muito importante e que
deve ser lembrado agora. Por isso, não deve continuar em
segredo e deve ser escrito numa placa com o registro desta visita.
Este dia não é só histórico, mas de
grande importância do ponto de vista espiritual.
Uma vez que este local foi abençoado dessa forma, todos
os seres que vierem aqui serão automaticamente abençoados.
Até mesmo o passarinho ou um pequeno inseto que morrer aqui
será abençoado. Não estou dizendo que ele vai
atingir a iluminação, mas sim que irá continuar
num caminho positivo. E o que se entende por um caminho positivo?
Um caminho que o leve para a liberação do sofrimento,
para uma vida melhor do ponto de vista interior. É claro
que se há esse benefício para um passarinho, uma minhoca,
o que for, ele existe para uma pessoa também. Mas não
é apenas para o momento da morte...
Buddha foi um cientista do mundo interior, e tinha o objetivo de
transformar os quatro principais processos da vida, ou seja, o nascimento,
o envelhecimento, a doença e a morte.
Não há nada mais importante do que reconhecer a preciosidade
dessa vida humana. Em tibetano, há um termo próprio
para dizer "o precioso corpo humano". Porque é
por meio dele que iremos nos libertar dos sofrimentos que estamos
agora completamente amarrados. Devido aos venenos mentais da ignorância,
da aversão e do desejo, geramos todos os sofrimentos do nascimento,
do envelhecimento, da doença e da morte.
Por isso, Buddha dedicou todos os seus esforços para transformar
essas quatro passagens da vida numa experiência sem sofrimento.
Buddha não fez isso para apenas Ele, mas para todos quando
compartilhou suas descobertas e realizações de um
modo que qualquer pessoa, seja ela religiosa ou não possa
compreender sua visão. Qualquer pessoa que tenha ou não
uma visão filosófica pré-construída
e observe Buddha, automaticamente vai sentir Buddha perto de si.
Por quê? Porque quando alguém faz algo diretamente
para nós, sentimos essa pessoa perto de nós.
Por isso, mesmo em países que não eram budistas,
as Relíquias de Buddha foram recebidas com muito amor, pois
havia uma grande abertura por parte de todos.
Por quê? Porque quando alguém faz algo para nós,
é isso que a gente sente. Por exemplo, quando estivemos no
Quênia, na Tanzânia, na África, países
nos quais nem se sabe quem foi Buddha, havia esse sentimento de
aproximação e união. Quando alguém nos
oferece algo de coração aberto, automaticamente nos
sentimos próximos desta pessoa.
Para mim também foi uma grande experiência poder levar
essas Relíquias a esses dez países. Eu fiquei muito
feliz ao ver a reação tão positiva das pessoas
não-budistas... foi muito incrível!
Gerar uma felicidade espontânea, quer dizer, mover positivamente
a mente de uma pessoa, é algo muito, muito difícil.
Fazer alguém sofrer é muito fácil, mas dar
felicidade verdadeira é uma coisa muito difícil. As
relíquias de Buddha trouxeram uma grande felicidade para
um número enorme de pessoas. Talvez elas nem soubessem dizer
por que se sentiam felizes. Isso, para mim, foi mais uma confirmação
da grandiosidade de Buddha. Isso fez com que aumentasse ainda mais
a minha fé.
O objetivo do Vida de Clara Luz é o mesmo de Buddha: poder
ajudar a transformar positivamente os quatro momentos de grande
transformação em nossa vida, o nascimento, o envelhecimento,
a doença e a morte.
Por exemplo, uma criança que nascer aqui vai ter uma benção
especial, terá um futuro especial. Uma pessoa que vier doente
para cá será ajudada a diminuir o sofrimento de sua
doença. A mesma coisa com relação ao sofrimento
do envelhecimento, que começa bem antes da velhice. Sem falar
do sofrimento da morte, que é o maior sofrimento que se vive
durante a vida. Conseguir superar e fazer com que alguém
morra sem sofrimento é algo também muito especial,
por isso rezo todos os dias para que o Vida de Clara Luz possa verdadeiramente
realizar seus objetivos de transformar esses quatro momentos da
vida em algo positivo, construtivo.
O mais importante que eu gostaria de dizer é que de fato
a missão, o significado do Vida de Clara Luz, é muito
grande, não é uma coisa pequena. Do ponto de vista
organizacional, para resolver as várias dificuldades e problemas
que possam haver, também não deve tudo ser colocado
na cabeça de uma só pessoa, nesse caso a Bel. Não
deve tudo ser colocado em cima dela para um propósito tão
grande quanto esse. Não é um propósito pessoal,
único dela, mas é um propósito que envolve
muitas pessoas. Já temos um pequeno grupo, mas ele deve crescer
cada vez mais. Todos juntos devem se responsabilizar para que isso
aconteça.
A gente vive no Samsara, problemas existem e vão sempre
existir. Se tivermos que lidar sozinhos com os problemas, as coisas
ficam mais pesadas demais. Por isso, precisamos nos unir para encontrar
soluções para todos os obstáculos, seja de
segurança ou do que for.
Uma das dificuldades com que temos de lidar hoje em dia é
o fato que a sociedade na qual vivemos hoje é guiada pelo
"deus dinheiro". Normalmente, ninguém gosta de
falar em lidar com questões que envolvem dinheiro. Mas temos
que aprender a lidar positivamente com o dinheiro.
Se estivéssemos vivendo em tempos como do passado, seria
diferente. Antigamente, no Tibete, na Índia, no Nepal, quando
alguém queria seguir o caminho espiritual, simplesmente ia
para um lugar de retiro na montanha. Hoje em dia, mesmo uma pessoa
que tenha uma pequenina casa de retiro na montanha, tem que pagar
impostos... hoje em dia todo mundo tem que estar registrado, tem
que ter documentos... antigamente não havia nada disso. Por
isso, quem quisesse seguir o próprio caminho espiritual e
não tinha (?) Querendo ou não, gostando ou não,
temos que estar sempre nos relacionando com a matéria, com
o dinheiro. Por isso, não devemos criar preconceitos em lidar
com o dinheiro. Temos de aceitá-lo e criar uma relação
positiva com ele também.
Devemos ter dois sentimentos pelo Vida de Clara Luz: um é
sentir que aqui é a nossa própria casa individual,
e o outro é que é uma casa coletiva. É muito
importante desenvolver esses dois sentimentos.
Quando eu digo que devemos nos sentir aqui como se estivéssemos
em nossa própria casa, o que isso quer dizer? Quer dizer
que devemos ter uma missão juntos. Uma missão clara
é fazer algo, algo que ainda não foi feito, algo novo.
Quando a gente olha qual é a missão do Vida de Clara
Luz, vê que é uma coisa nova, que não foi feita
antes. Então é uma missão para a qual temos
de nos unir para realizá-la. Quando reconhecemos sua importância,
sabemos a preciosidade de colocarmos nossos esforços para
oferecer algo verdadeiramente útil para o mundo. Então
é isso, principalmente, o que eu gostaria de dizer.
Pelo poder da verdade,
Com a atenção de todos os seres humanos,
Que a cultura de violência seja transformada em cultura de
não violência.
Cultura de paz agora e sempre.
Efeitos colaterais não violentos, efeitos colaterais positivos
agora e sempre.
Efeitos colaterais positivos são o melhor para a saúde
física e mental.
Efeitos colaterais são o melhor para o desenvolvimento espiritual.
Saúde física e mental agora e sempre.
Paz no meio ambiente interno e externo agora e sempre.
Paz interior e paz mundial agora e sempre.
A paz interior é a fundamento mais sólido para a paz
mundial.
Amor e compaixão agora e sempre.
Harmonia e felicidade agora e sempre.
Novo êxtase e vacuidade agora e sempre
Vida de Clara Luz agora e para sempre com sucesso!
Tashi Delek!
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