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Estresse: quando perdemos o ponto de equilíbrio?
por Andrea Vannini Santesso Caiuby

Identificar fatores estressantes em nossas vidas parece uma tarefa fácil: somos capazes de identificar vários fatores externos como responsáveis por nossos mal-estares e desprazeres com muita assertividade. Contudo, quando a tarefa é identificar internamente alguns fatores, como o que nos leva a sentir esse mal-estar, o que nos dá a sensação de desequilíbrio, o que nos leva a reagir com impulsividade e sem controle sobre emoções e palavras, parece que a tarefa fica um pouco mais delicada. Conseguir identificar fatores estressantes externos e internos, bem como os estados de estresse em que nos encontramos no nosso dia a dia, pode ajudar a tornar a vida bem melhor.
Na década de 20, o estresse foi denominado por Hans Selye de síndrome do estar doente e mais tarde passou a ser nomeado como síndrome de adaptação geral, até receber o nome de estresse conhecido atualmente. O termo "estresse" foi emprestado da engenharia e significa o peso que uma ponte suporta até que se parta.
Quando reagimos a situações estressantes, apresentamos na maioria das vezes um tipo de reação que nos remete a um padrão bem primitivo. Quando falo primitivo, digo que este tipo de reação se assemelha aos padrões instintivos de "ataque e fuga". Este padrão de reação é igual a todos os seres viventes (humanos, animais, vegetais e outros) e tem por objetivo nos proteger de algo que ameaça a existência física e, nos humanos em particular, a existência mental. Por exemplo: um cachorro late e rapidamente você se afasta; ou uma pessoa o agride e você responde ou se esquiva. Assim, corpo e mente reagem à situação de ameaça.
Ativado pelo Sistema Nervoso Central, o corpo produz os mais diferentes hormônios, reações e sintomas em resposta a reações de "ataque e de fuga". Tal estado é denominado de síndrome do estresse, ou seja, um conjunto de reações mentais e físicas (denominadas de sintomas) que caracterizam o estado particular de estar em alerta.
A definição do termo estresse nos conduz a duas concepções: ao estresse como processo natural e benéfico e o estresse que nos conduz a estados prejudiciais de saúde.
A primeira maneira de viver o estresse é inerente aos seres viventes, faz parte da nossa natureza e nos impulsiona e novas adaptações a mudanças e a preservações, preparando o corpo através do estado de alerta para enfrentar situações novas, um movimento saudável e produtivo. Quem, por exemplo, já não teve a mão suada antes de uma entrevista ou o coração acelerado antes de uma cerimônia importante como o casamento?
Por outro lado, podemos viver o estresse como um conjunto de sintomas decorrentes de um contínuo enfrentamento de situações estressantes, que podem nos levar a estados e situações de prejuízos, "nos partindo" e desenvolvendo doenças físicas e mentais. E é sobre esta maneira de viver o estresse que gostaria de falar, porém é necessário saber identificar as fases dos estados de estresse para depois podermos nos ajudar.
A síndrome do estresse se apresenta em fases crescentes de comprometimento físico e mental, conforme segue:
A fase do alerta se configura quando o individuo entra em contato com o fator "estressante" e apresenta sensações como sudorese, taquicardia e respiração ofegante, entre outras. Ocorre a perda do equilíbrio interno para enfrentar a situação a qual precisa se adaptar. É uma fase fundamental para a sobrevivência humana. É necessário observar os desconfortos desta fase - como insônia, ansiedade ou tristeza - pois o corpo está mandando avisos.
Nesta fase, há uma quantidade enorme de adrenalina e outros hormônios sendo despejados no organismo para enfrentar a situação estressante, mas se estas situações não tiverem fim, o corpo continuará a liberar os hormônios e o estado de alerta se estenderá, podendo assim nos prejudicar. Saber gerenciar a quantidade de adrenalina no corpo é fundamental, e para isso precisamos colocar limites na mente e no corpo, não deixando peso demais sobre nós.
A fase de resistência ocorre quando o organismo tenta se recuperar do desequilíbrio ocorrido na fase de alerta, resistindo aos estímulos estressantes. Assim, o corpo e mente retomam o equilíbrio de funcionamento e apresentam alguns sintomas devidos ao desgaste sofrido, como gripe, herpes, enxaqueca, cansaço, variações emocionais e outros. Contudo, se o estado de estresse continua, o corpo começa a ser prejudicado pelo contínuo estímulo dos hormônios e entra na nova fase do estresse.
A fase seguinte é a de exaustão, onde os sintomas da fase de alerta e resistência apresentam-se agravados e muitas vezes já com início de doenças. O corpo e a mente estão comprometidos e alguns dos sintomas são: doenças cardiovasculares, pressão alta, úlcera, gengivite, problemas de pele, irritabilidade aumentada, falta de ânimo, falta de concentração entre outros. Esta fase é a mais preocupante e o estresse exaustivo leva a doenças sérias. Quando se entra nesta fase é muito difícil sair sozinho, e a ajuda de especialistas em saúde é necessária.
Então, podemos refletir que entrar em estados de estresse e de desequilíbrio faz parte da nossa natureza humana, porém o que nos leva a estados prejudiciais de saúde é permanecer em alerta e em desequilíbrio por tempo demasiado.
Compreender a definição do estado de equilíbrio e de desequilíbrio também se torna fundamental para sua auto-análise. Na definição do dicionário Aurélio, equilíbrio significa manter o corpo em posição normal, sem oscilações ou desvios; remete à igualdade entre forças opostas, sendo o desequilíbrio um estado de desigualdade de forças, de oscilações e desvios. A cultura ocidental define o desequilíbrio como um estado que no mínimo é não-natural, pois o qualifica como algo ruim, não benéfico, a causa do mal a nós e aos outros, estado onde a mente fica confusa e sem clareza de sentimentos e propósitos e ainda como um estado que não possibilita ações coerentes e assertivas.
E assim, passamos a vida vendo-nos em estados de mudanças e oscilações e em busca de paz e momentos de equilíbrio e tranqüilidade. O que, na verdade, significa esta busca? Será que é assim que devemos perceber a realidade? Penso que vivemos envolvidos por percepções errôneas e que podemos, sim, modificar nossa realidade identificando os fatores estressantes pessoais.
O que tira você do estado de equilíbrio? Quais são os seus fatores estressantes? No dia a dia, vivemos de uma maneira onde tudo fica projetado no mundo externo e muitas vezes no futuro: quando eu terminar a reforma do meu apartamento terei paz; quando eu tirar férias vou ficar melhor; quando eu decidir o que escreverei no meu projeto ficarei tranqüilo. Será que a vida é feita da busca do equilíbrio? Ou podemos viver a vida como uma realidade em constante mudança e desafio? Assim, o desequilíbrio e estados de alerta não seriam concebidos como um estado não natural e que nos faz mal em si, e sim o fato de projetarmos as expectativas de paz e boas realizações sobre os fatores externos, permanecendo fora de nós mesmos, é que nos causa prejuízo.
Mudanças geradas por acontecimentos e por fases de nossa história (adolescência, casamento, mudança de emprego, perdas, separações) sempre solicitam novos arranjos diante de situações inusitadas e desafiadoras. Quando olhamos para o passado e vemos os momentos já vividos em nossa vida, estes acontecimentos apresentam claramente um começo, meio e fim, e temos que admitir que tais acontecimentos são cíclicos e impermanentes.
E assim, parece que temos que nos adaptar a viver estes ciclos com maior naturalidade e viver em paz durante eles, não projetando a felicidade ou estado de bem estar ao final deles e sim vivendo os momentos de mudanças e desafios em paz.
Na filosofia do Budismo Tibetano, pode-se refletir sobre a realidade da impermanência. Pema Chodron esclarece que: "As pessoas não respeitam a impermanência. Ela não nos dá prazer, na verdade a vemos como desespero e sofrimento. Tentamos resistir a ela fazendo coisas que durem para sempre, fazendo coisas que garantam nosso eterno bem estar e prazer, mas na verdade neste processo de tentar negar a impermanência, e que tudo está em continua mudança, tentamos negar o natural da vida. E temos uma tendência a negar de que fazemos parte do esquema natural das coisas. Muitas culturas celebram o inicio e fim de muitas coisas do nascimento a morte. O nascimento é maravilhoso e doloroso. A morte é dolorosa e maravilhosa. Tudo que acaba também é inicio de algo novo".

Lama Michel, no ano de 2006, disse que vivemos num mundo de impermanência, mas que vivemos como se tudo fosse permanente, da mesma forma sabemos que somos mortais, mas vivemos como se fossemos imortais. Desta maneira distorcida, colocamos a esperança em tudo o que projetamos como sendo a felicidade, desejamos isso ou aquilo, queremos "assim" ou "assado". Assim estamos criando mais um padrão de certo ou errado que invariavelmente vai ser frustrado, ou que pelo menos vai dar um enorme trabalho para manter o caminho "correto" e que será necessário ficar todo o tempo em alerta para que as coisas aconteçam de maneira perfeita.
Não perceber o movimento natural da vida nos torna seres inflexíveis, inseguros e ameaçados, pois a todo momento podemos nos deparar com as mudanças e com o fim do que temos como correto e perfeito a ser atingido.
Portanto, parece que a questão central nos remete ao modo como vivemos a impermanência dos acontecimentos em nossas vidas e ao fato de que a síndrome do estresse está vinculada ao modo como reagimos e nos relacionamos com nossas esperanças e mortes de cada dia. E é neste ponto que perdemos nosso equilíbrio, ou melhor, é neste ponto que, através do auto-conhecimento de nossas esperanças e mortes, podemos viver em paz.

 

Referência bibliográfica
1. "Relaxamento para todos - controle seu stress" Marilda Novaes Lipp - Editora Papirus
2. "O Stress" Marilda Novaes Lipp - Lucia Emmanuel Novaes -Editora Contexto
3. "Orientação para tempos difíceis - Quando tudo se desfaz" -Pema Chodron -Editora Gryphus
4. "Coragem para seguir em frente" Lama Michel Rinpoche -Editora Gaia
5. "Uma questão de equilíbrio" - Sergio Klepacz - MG Editores
6. "Aprenda a relaxar" - Mike George- Editora Gente

Vida de Clara Luz - Sede Rua Aimberê, 2008 - Perdizes - 3872-6858