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Artigos Morte

Direito à vida digna, direito à morte digna
Por Ivone Silva e Guilherme Salgado Rocha - reportagem extraída na íntegra da revista DR (Publicação bimestral do SIMESP Sindicato dos Médicos de São Paulo - janeiro /fevereiro nº 42), gentilmente cedida para o nosso site do Vida de Clara Luz.

Após exaustivo debate, CFM publica Resolução da ortotanásia, que evita o prolongamento artificial da vida. Atitudes como as do Papa João Paulo 2º e de Mário Covas são exemplos de aceitação da morte. Resolução, porém, não tem força de lei e médicos temem processo judicial. Procuradoria da República no Distrito Federal ingressará com ação civil pública

"Na fase terminal de enfermidades graves e incuráveis é permitido ao médico limitar ou suspender procedimentos e tratamentos que prolonguem a vida do doente, garantindo-lhe os cuidados necessários para aliviar os sintomas que levam ao sofrimento, na perspectiva de uma assistência integral, respeitada a vontade do paciente ou de seu representante legal". Este texto é a Resolução 1805/2006 do Conselho Federal de Medicina que permite a prática da ortotanásia (orthos, grego, reto, correto, normal, justo; tanatos, a pulsão de morte. Daí, ortotanásia, segundo o Houaiss, a boa morte, supositivamente sem sofrimento).

Aceitar a morte como processo natural da vida, por mais difícil que seja, pode evitar dores ainda maiores. Como um familiar ou amigo em UTI, a vida prolongada por aparelhos - um fio de vida vegetativa, mantido pela alta tecnologia adotada na medicina moderna.

Como membro da Câmara Técnica de Bioética do Cremesp, com forte interesse e participação nas discussões dos temas bioéticos, Isac Jorge Filho sente-se à vontade para falar da Resolução: "O objetivo é lutar contra a distanásia, o prolongamento puramente artificial da vida, com cuidados fúteis, que coloca pacientes, familiares e médicos em situação de inútil sofrimento pela manutenção artificial, completamente desprovida de esperanças. Uma vida que, artificialmente, frise-se, se tornou vegetal."

Distanásia
Para Cid Carvalhaes, advogado e presidente do Simesp, a morte deve ser encarada "naturalmente", como uma passagem pela vida. "Temos de facilitar a vida e não complicar a morte. UTIs, não raro, tornam-se catedrais do sofrimento. Prolongar a vida inutilmente, por meio de aparelhos e terapêuticas injustificáveis, promove morte sofrida e dolorosa. É a distanásia. A vida é finita. Nascemos para morrer, com decência e dignidade, é claro, porém sem arroubos e exageros para prolongamentos injustificáveis. Doença consuntiva, proliferativa, crônica, com prognóstico fechado, terá, necessariamente, limites biológicos a serem respeitados. Manter artificialmente, por excessos terapêuticos medicamentosos, ou recursos a órteses e próteses, nada mais representa senão contradição biológica das mais evidentes".

Segundo sua opinião, ao médico competente a "sublime" missão assistencial, em sua vertente mais ampla. A morte jamais deve ser encarada como inimiga "mortal" a ser combatida a qualquer custo: "Incompreensível. Mas ser vista como conseqüência natural da vida". Completa: "Evita-la, quando possível, é mais do que obrigação do médico, mais compromisso, convicção, vocação com o respeito e a preservação do seu semelhante. Prolongar inutilmente a vida, com posturas até mesmo desumanas e insustentáveis, afigura-se egoísmo, às vezes remorsos, autopunição por desrespeitos anteriores, teoricamente a serem compensados à beira do leito de morte. A vida é fantástica, maravilhosa, atraente, acolhedora, e talvez, por isso mesmo, deve ser lembrada com alegria, deferências, homenagens e saudades. Nunca com um sofrimento terminal, dores, horrores e pavores".

O assunto continua sendo exaustivamente discutido. A Resolução, fruto de trabalho do Cremesp e CFM, não se limitou aos médicos. A Câmara Técnica de Bioética do Cremesp é multiprofissional, incluindo teólogos, advogados, enfermeiros e professores universitários de diferentes áreas. Mesmo cuidado teve o CFM em ampliar a representatividade em sua Câmara Técnica de Terminalidade da Vida, convidando teólogo, desembargador e representantes das áreas de cuidados paliativos, geriatria, terapia intensiva e bioética.

Histórias como a de João Paulo 2º e Mário Covas, que lutaram para ter morte digna e natural, no próprio quarto, ao lado dos entes queridos e livres da obstinação terapêutica a que médicos são forçados, foram usadas como exemplos.

A CNBB (Conferência Nacional dos Bispos do Brasil) se posicionou favoravelmente. Nota assinada por dom Odilo Pedro Scherer, bispo-auxiliar de São Paulo e secretário geral da entidade, afirma: "Em relação à ortotanásia, a posição da CNBB é aquela já manifestada mais vezes em documentos da Igreja. Refiro-me, especialmente, à Encíclica Evangelium vitae (O Evangelho da vida, 1995), de João Paulo 2º, na qual o Papa, após ter afirmado a clara posição contrária à eutanásia, ressalta: 'distinta da eutanásia é a decisão de renunciar ao chamado 'excesso terapêutico', ou seja, a certas intervenções médicas já inadequadas à situação real do doente, porque não proporcionadas aos resultados que se poderiam esperar, ou ainda porque demasiado pesadas para ele e para sua família'." O Papa teve intensa experiência de dor e esperança, após ter sido baleado. Ficaram seqüelas até a sua morte.

Ainda no mesmo documento, o Papa afirma: "A renúncia a meios extraordinários ou desproporcionados não equivale ao suicídio ou à eutanásia; exprime, antes, a aceitação da condição humana diante da morte".

Padre Leo Pessini, respeitado estudioso de temas ligados à biotética, lembra em seu livro "Distanásia: até quando prolongar a vida": "Na iminência de uma morte inevitável, apesar dos meios usados, é lícito, em consciência, tomar a decisão de renunciar a tratamentos que dariam somente um prolongamento precário e penoso da vida, sem, contudo, interromper os cuidados normais devidos ao doente em casos semelhantes. Por isso, o médico não tem motivo para se angustiar, como se não tivesse prestado assistência a uma pessoa em perigo".

Lembra que o sofrimento é o preço que todos pagam por amar. "Na realidade, quando escolhemos alguém para amar, deveríamos também saber que corremos o risco de dizer adeus, e deixar partir. É quando o sofrimento começa. Assim como leva tempo para amar, leva tempo também para partir".
Apesar de não haver posição unânime no rabinato, Henry Sobel, rabino e presidente da Congregação Israelita Paulista, apóia o CFM: "O judaísmo afirma incondicionalmente a santidade da vida. Entretanto, quando essa se torna vegetativa, sua santidade pode ser questionada. Em casos extremos, quando o sofrimento inútil está sendo prolongado por meios artificiais, quando a vida nem é mais vida, a interrupção de tratamento é um ato de compaixão."

O rabino levanta uma polêmica: "Há quem diga que a decisão não cabe aos médicos, nem às autoridades eclesiásticas, devendo ficar restrita aos legisladores e aos tribunais. Não concordo". Os legisladores e os juízes, em sua opinião, têm a função de determinar o que é legal, mas médicos, líderes religiosos, pacientes e população "precisam decidir o que é moral".

O judaísmo afirma que o "pikuach nefesh", ou seja, o dever de salvar uma vida, geralmente tem precedência sobre as demais considerações. Henry Sobel explica, porém, que há legislação judaica referente ao caso de pessoa prestes a morrer. "Essa legislação, embora afirme explicitamente que nada se pode fazer para apressar a morte do paciente, permite remover algo que esteja impedindo a morte. Traduzindo em termos contemporâneos, um exemplo seria o respirador mecânico".

A decisão do CFM não é consensual. O procurador regional dos Direitos do Cidadão no Distrito Federal, Wellington Marques de Oliveira, discorda da resolução. A revista DR! tentou, por vários dias, falar com o procurador. No primeiro contato fomos informados que estava em férias. Aguardamos seu retorno, e após diversas tentativas de comunicação, no dia 31 de janeiro, só conseguimos obter uma posição pela Assessoria de Imprensa da Procuradoria da República no Distrito Federal: "Atualmente não está havendo nenhum contato com o CFM. O procurador ingressará com ação civil pública nos próximos dias, quando seus argumentos serão conhecidos."

O Conselho Federal respondeu a uma serie de questionamentos feitos pelo procurador no dia 20 de novembro. O presidente do CFM, Edson de Oliveira Andrade, afirma no documento enviado ao Ministério Público Federal que ortotanásia não provoca a morte do paciente, pois "o processo de vida se extingue naturalmente". Reafirma que a ortotanásia não é procedimento médico, mas resultado do processo natural de uma vida que se extingue: "Ao médico compete proporcionar a seu paciente todos os meios existentes para diminuir ou abolir o sofrimento que porventura possa ocorrer no fim da vida. Respeitamos o direito e a justiça. A resolução não é manifestação de poder, mas o reconhecimento e a expressão de nossa humildade diante da natureza. Ao editá-la, entendemos que cumprimos os preceitos éticos da beneficência e não maleficência, que constituem os alicerces hipocráticos de nossa profissão".

Mesmo após a publicação da resolução e palavras de apoio de vários segmentos da sociedade, manter a vida a qualquer modo continuará sendo o lema dos médicos em geral e, em especial, os da Terapia Intensiva. Não por concordarem, mas por medo. Principalmente por receio de sofrer processos judiciais. A Resolução não tem força de lei. Portanto, somente mudança na legislação garantiria aos profissionais, pacientes e familiares absoluta segurança para colocá-la em prática. Segundo o médico Isac Jorge, os profissionais da terapia intensiva "têm razão", pois podem ser acusados de contribuir para a morte de um paciente, mesmo que não exista mais nada a fazer para recuperá-lo. "Lamentavelmente, alguns ainda entendem as condutas preconizadas na Resolução do CFM como medidas de eutanásia, e chegam a falar em 'homicídio'. É claro que com esse clima os médicos continuarão com sua obstinação terapêutica, não porque entendem que beneficiarão o paciente, mas para se proteger".

Cuidados paliativos
Quando não se pode curar, é preciso cuidar para minimizar o sofrimento. Maria Goretti Sales Maciel é médica de família e sanitarista, diretora do Serviço de Cuidados Paliativos do Hospital do Servidor Público Estadual de São Paulo e presidente da Academia Nacional de Cuidados Paliativos. Conta parte da história dos cuidados paliativos: "Foram definidos e recomendados pela Organização Mundial de Saúde - OMS - em 1990. Em 2002, o conceito foi revisto e ampliado, passando a ser o conjunto de medidas destinadas ao cuidado de pacientes e familiares quando se encontram diante de doença ativa, progressiva e ameaçadora à continuidade da vida. O principal objetivo dos cuidados paliativos é proporcionar a prevenção e o alívio do sofrimento por meio de uma identificação precoce, avaliação e tratamento impecável da dor e outros sintomas desconfortantes de natureza física, psicossocial ou espiritual".

Na prática, significa unir esforços de uma equipe de profissionais e voluntários para o paciente e a família se sentirem seguros para enfrentar o tratamento, qualquer que seja o resultado, as recidivas, a evolução da doença, a fase em que o tratamento não é mais capaz de controlar a doença e os momentos finais da vida.

Na revista "A Terceira Idade", editada pelo Sesc São Paulo, artigo da médica Maria Goretti relata que os cuidados paliativos surgiram, no Reino Unido, oficialmente como prática distinta na área da saúde. Isso na década de 60 do século 20, a partir da criação do Saint Christhopher Hospice, em Londres, fruto do trabalho da médica Cicely Saunders. "Essa médica inglesa inovou ao sistematizar um conhecimento voltado para o alívio da dor e do sofrimento inerentes ao final da vida, por meio de abordagem que concilia os aspectos orgânico, psicoemocional, social e espiritual da pessoa doente e daqueles que participam de sua vida: família, amigos próximos e convivas".

Ainda no Reino Unido, a Medicina Paliativa foi reconhecida como especialidade médica em 1985, e em seguida em outros 15 países dos diferentes continentes. "A nova especialidade reafirma o papel do médico como guardião da vida, entendendo que a morte é processo natural, mas complexo, e precisa de atenção especial de toda a equipe de profissionais da saúde. O controle dos sintomas clínicos a qualquer momento e a condução correta e coerente do processo final compõem o objetivo primordial da Medicina Paliativa".

Os princípios desse atendimento foram reafirmados em documento da Organização Mundial de Saúde em 2002, e podem ser elencados: respeitar a vida e perceber a morte como fato natural; entender que o processo de morrer necessita de cuidados especiais e deve ser conduzido com habilidade suficiente para não abreviar a vida e não prorrogar inutilmente o sofrimento; cuidar da pessoa doente e não apenas da doença, o que acarreta abordagem holística e multidisciplinar; cuidar da família com tanto empenho quanto do paciente; os sintomas inconvenientes e a dor precisam ser prevenidos e tratados de forma impecável; a busca do conforto e da qualidade de vida por meio do controle de sintomas pode se traduzir em mais dias de vida, no que não há nenhum inconveniente; o tratamento paliativo deve ser iniciado o mais precocemente possível, concomitantemente ao tratamento curativo, e deve lançar mão de todo esforço necessário para a melhor compreensão e controle dos sintomas; o tratamento adequado da dor em qualquer doença é imprescindível e sua presença deve ser inaceitável.

Dona Argentina
Dona Argentina Pereira da Costa elogiou diversas vezes o tratamento recebido no HSPE: "Estou no céu, vem muita gente me ver, todo mundo tão atencioso". Internada com dores na perna, Dona Argentina, 74 anos, baiana de "perto de Feira de Santana", 6 filhos, moradora em Guarulhos, tinha problemas sérios. "Um câncer de mama avançado" segundo a médica Maria Goretti, com metástase nos ossos, pulmão, fígado, e coluna lombar. Havia compressão da medula e muitas dores, definidas pela médica como "dores severas". Foi internada para controlar a dor com analgésicos e radioterapia paliativa. Permaneceu 15 dias na ala de cuidados paliativos. Morreu uma semana depois da entrevista. Na semana entre a entrevista e a sua morte houve falência renal, ficou confusa, quase nada comeu, já não conversava mais. Estava sofrendo. Sofrimento incompatível com o sorriso doce e com os olhos de quem viveu com delicadeza e alegria. "Eu rio de tudo, as pessoas me vêem e perguntam: 'Está rindo de quê, Argentina?'. Eu continuo rindo".


Assistência espiritual
Maria Lúcia Prado Soares é evangélica, membro da Igreja dos Irmãos, também conhecida como Igreja Evangélica Casa de Oração. Como voluntária, atende espiritualmente a toda a demanda do HSPE, mas é membro integrante da equipe dos Cuidados Paliativos. "Nosso trabalho aqui não tem uma conotação 'apenas' religiosa, mas é de valorizar o ser humano, sua vontade, sonhos, desejos. Especificamente nos Cuidados Paliativos, é ajudar o doente a ter uma morte com dignidade, ao lado da família".

Ela e a equipe da Capelania Evangélica Hospitalar, cujo lema é "Medicando a alma", percebem, na prática, como há uma procura pelo transcendente quando o doente sente-se só diante do mistério da vida e da ignorância diante da morte: "A enfermidade traz o medo, culpa e desesperança. Mesmo quando não há mais esperança clínica, o Deus de toda a consolação fortalece, dá propósito ao sofrimento e renova a esperança, seja para lutar contra a enfermidade em favor da vida, ou para aceitar a morte com dignidade".

Eterna companheira
"A Morte é nossa eterna companheira... Ela se encontra à nossa esquerda, ao alcance do braço. Ela nos olha sempre, até o dia em que nos toca. Como é possível a alguém se sentir importante, sabendo que a Morte o contempla? O que você deve fazer, ao se sentir impaciente com alguma coisa, é voltar-se para a sua esquerda e pedir que sua Morte o aconselhe. Sempre que você sentir, como tantas vezes acontece, que tudo está indo de mal a pior e que você se encontra a ponto de ser aniquilado, volte-se para a sua Morte e lhe pergunte se isso é Verdade. Sua Morte lhe dirá que você está errado, que nada realmente importa, fora do seu toque. Houve um tempo em que nosso poder perante a morte era muito pequeno. E, por isso, os homens e as mulheres dedicavam-se a ouvir a sua voz e podiam tornar-se sábios na arte de viver. Hoje, nosso poder aumentou, a morte foi definida como inimiga a ser derrotada, fomos possuídos pela fantasia onipotente de nos livrarmos de seu toque. Com isso, nós nos tornamos surdos às lições que ela pode nos ensinar. E nos encontramos diante do perigo de que, quanto mais poderosos formos perante ela (inutilmente, porque só podemos adiá-la), mais tolos nos tornamos na arte de viver. E, quando isso acontece, a Morte, que poderia ser conselheira sábia, transforma-se em inimiga que nos devora por detrás. Acho que, para recuperar um pouco da sabedoria de viver, seria preciso que nos tornássemos discípulos e não inimigos da Morte. Mas, para isso, seria preciso abrir espaço em nossas vidas para ouvir a sua voz".

Rubem Alves, escritor e educador

Eutanásia
"Prática de cessamento indolor da vida, em geral realizada como ato de misericórdia para aliviar a dor crônica e o sofrimento"
Dicionário Larousse

Distanásia
"Morte lenta, ansiosa e com muito sofrimento. Antônimo: Eutanásia"
Dicionário Aurélio

"A morte pertence à vida, como pertence o nascimento. O caminho tanto está em levantar o pé, como em pousá-lo no chão". Rabindranath Tagore, filósofo e escritor indiano, Nobel de Literatura de 1913

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