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Linfomas
Dr. Jaques Tabacof
Médico hematologista e oncologista
Especialização no M. D. Anderson Câncer Center
- Houston - Texas- USA
Médico do Centro Paulista de Oncologia
Em termos de doença oncológica, podemos dizer que
o linfoma, ou câncer linfático, é daquelas com
maior incidência, que tem aumentado no mundo inteiro a uma
taxa de 4% ao ano.
O que caracteriza os linfomas é uma produção
anormal e descontrolada dos glóbulos brancos, mais especificamente
dos linfócitos, produzidos nos gânglios linfáticos
ou linfonodos. Em uma situação normal, nosso corpo
é capaz de reconhecer um invasor (como uma bactéria,
por exemplo), promover uma reação inflamatória
no local da infecção, deixando a região quente
e avermelhada, e produzir de forma organizada os linfócitos
para que realizem a destruição do invasor. Isso leva,
muitas vezes, ao aumento do tamanho dos gânglios, que se tornam
dolorosos e são conhecidos como íngua. Os linfócitos
produzidos nessas situações de infecção
se originam a partir de inúmeros linfócitos diferentes,
sendo denominados policlonais, isto é, vários clones
de linfócitos diferentes reconhecem o invasor e se multiplicam
para o ataque. Essa proliferação em resposta a um
agente agressor possui um controle bastante rígido, e quando
a infecção é debelada, a multiplicação
cessa, os gânglios reduzem de tamanho e tudo volta ao normal.
No linforma, os linfócitos perdem o controle sobre sua proliferação,
perdem a capacidade de comunicação com o organismo
e passam a se multiplicar indefinidamente. A característica
é que usualmente basta um único linfócito descontrolado
para que o linfoma seja iniciado, num processo denominado proliferação
monoclonal, em que todos os linfócitos se originam de um
único e mesmo linfócito. Os gânglios também
aumentam de tamanho, como nas infecções, mas ao contrário,
são indolores e não há sinal de inflamação,
com regiões avermelhadas ou quentes no corpo. E não
desaparecem com o tempo.
Em geral os linfomas não estão associados à
infecção. Porém, nos casos de infecções
crônicas, em que o organismo exige a proliferação
dos linfócitos por um longo período de tempo, essa
multiplicação aumenta as chances de mutação
no DNA dos próprios linfócitos, aumentando as chances
estatísticas de um linfoma. Em outras palavras, se ocorre
uma mutação em um linfócito, ele pode perder
a capacidade de controlar sua proliferação.
Os linfomas constituem um grupo complexo de doenças - mais
de 30 tipos ao todo - diferenciados de acordo com o tipo de mutação
genérica ou do tipo de alteração que o linfócito
apresenta. A definição clínica, no entanto,
considera três grandes grupos:
1. Os de baixo grau, também denominadas lentos ou indolentes,
em que os gânglios dobram de tamanho em certa de seis meses,
um ano. São mais comuns em pessoas idosas.
2. Os de Alto grau ou rápidos, em que os gânglios dobram
de tamanho em dois ou três dias, como o linfoma de Burkitt
ou linfoblástico, que ocorre em pessoas jovens.
3. Os de grau intermediário, que dobram de tamanho em cerca
de um mês.
Diagnóstico
Quando um gânglio persistente e indolor é identificado,
é necessário que seja realizada uma biópsia,
que irá identificar os tipos de células presentes
no gânglio. Se na biópsia for encontrado um único
tipo de célula, sugerindo uma origem única ou um clone,
fica sugerido o diagnóstico de linfoma, mais especificamente
do tipo não Hodgkin. Se a biópsia mostrar a presença
de células de Reed com infiltrado de vários tipos
de glóbulos brancos pode-se dizer que é um linfoma
tipo Hodgkin.
Colorações especiais podem também diferenciar
se as células são originarias de linfócitos
B ou linfócitos T , e a imunohistoquímica auxilia
a diferencias os linfomas do tipo Hodgkin dos não Hodgkin,
estes últimos sendo geralmente CD20+. Outros estudos mais
específicos visam determinar o tipo de metabolismo das células.
Todas essas informações auxiliam na decisão
pelo tipo de tratamento a ser adotado, e têm auxiliado a entender
melhor porque apenas metade dos casos responde bem à quimioterapia.
Ao que parece, as diferentes mutações genéticas
que podem dar origem aos diferentes linfomas reagem de forma diferente
à terapêutica e, dessa forma, entender a fisiologia
dessas células irá auxiliar a compreender a doença
como um todo e a desenvolver tratamentos específicos para
cada caso.
Exames complementares
Depois da biópsia e da confirmação do diagnóstico
de linfoma, exames complementares, como tomográficas, raio-X
e ultra-som, além do exame físico minucioso, serão
necessários para que seja possível estabelecer o estagio
de desenvolvimento da doença, ou sei estadiamento. Usualmente,
nos linfomas do tipo Hodsgkin, os primeiros gânglios a surgir
são os do pescoço, após o que seguem uma seqüência
característica com desenvolvimento de gânglios no mediastino,
na axila e no abdômen, atingindo o fígado e a medula
óssea nos estágios terminais da doença (veja
quando dos estadiamentos). Nos linfomas do tipo não Hodgkin
a progressão é mais caótica, não obedecendo
a uma seqüência de acometimento ganglionar.
Tratamento
Qualquer que seja o estadioo da doença, o tratamento consiste
na administração de quimioterapia, complementada ou
não pela radioterapia. A diferença com os demais tipos
de câncer é que os linfomas geralmente respondem bem
à quimio, mesmo para pacientes em estágio avançado
(estadio IV) da doença.
Estadiamento dos linfomas tipo Hodgkin
O acometimento dos gânglios segue uma seqüência
característica e progressiva, de tal forma que o estádio
II inclui o estádio I, o III inclui os estádio I e
II, e finalmente o IV, que inclui todos os estádios anteriores.
· I apenas uma cadeira ganglionar comprometida, geralmente
no pescoço.
· II duas cadeias ganglionares comprometidas do mesmo lado
do diafragma, isto é, na região torácica.
· III acomentimento também da região infra-diafragmática,
com gânglios peritôneo.
· IV acomentimento do fígado e da medula ósseca
Esses 4 estadios devem ser acrescidos das letras A e B
*A paciente sem febre, emagrecimento ou sudorese noturna
*B paciente com febre, emagrecimento e suores noturnos
No entando, alguns tipos de infomas que se apresentam de forma
semelhante, não reagem da mesma forma às mesmas drogas.
Graças aos avanços da biologia molecular, hoje é
possível diferenciar e definir o porquê dessa diferença
de resposta à quimioterapia; na verdade, esses linfomas são
diferentes do ponto de vista molecular, pois expressam genes diferentes.
Para a escolha da melhor estratégia quimioterápica
é fundamental que a biópsia estabeleça se o
linfoma é do tipo Hodgkin ou não Hodgkin, pois há
pequenas sutilezas na escolha das drogas a serem utilizadas, bem
como forma de aplicação.
Linfomas e Leucemias
Os linfomas não devem ser confundidos com as leucemias, que
são câncer da medula óssea (leucemia mielóide)
e do sangue (leucemia linfóide).
Ad drogas atualmente utilizadas, como o Mabthera, são capazes
de reconhecer uma molécula presente apenas nos linfócitos,
o CD20, se ligar a ela e destruir as células que a possuem.
Esse tratamento, além de eficiente, traz poucos efeitos colaterais,
pois destroem apenas os linfócitos, não promovem a
queda do cabelo e nem debilitam a pessoa.
A esperança é, no futuro, conseguir fazer um diagnóstico
mais preciso ainda, afim de desenvolver tratamento biológicos
específicos para aqueles pacientes que não respondem
bem à quimioterapia.
Paulo Cardoso de Almeida
O papel do patologista:
Como pode ser depreendido do artigo acima, os linfomas são
cânceres do sistema imunológico. O sistema imunológico
é aquele que faz com que organismos ou substâncias
estranhas ao nosso corpo sejam identificadas e destruídas.
O processo pelo qual isso acontece é muito bem estudado,
extremamente complexo, e envolve uma adaptação progressiva
das células envolvidas para que possam se se especializar
em atacar o "inimigo" presente.
Em qualquer uma das fases desse processo adaptativo, essas células
podem perder seu controle de reprodução e se tornarem
cancerosas. Por isso mesmo a classificação dos tipos
de linfomas é um dos assuntos mais discutidos de toda a medicina,
e vem sendo modificada sistematicamente ao longo dos anos.
A classificação precisa do tipo de linfoma é
feita por um patologista. É extremamente difícil,
mesmo para patologistas experientes, e depende de muitos métodos
auxiliares para sua orientação ou confirmação.
No entanto, a terapia a ser escolhida é baseada nessa classificação
e o tratamento pode ser ineficaz se o diagnóstico não
tiver sido o correto. Por isso é comum, em nosso Laboratório,
recebermos para revisão casos de outros hospitais de São
Paulo, alguns deles grandes e renomados, cujos diagnósticos
foram imprecisos. Após a correção do diagnóstico,
o tratamento mais adequado pode ser determinado.
Doutor em Patologia - FM-USP
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