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Artigos Morte

Uma ampla visão sobre a morte
Extraído do Livro "O livro das Emoções" de Bel Cesar, Editora Gaia.

Se uma pessoa torna-se mais completa antes de morrer,
é porque ocorreu a cura.
Stephen Levine

Esta noite tive um sonho. Estava em Nova York (estrangeiro) sabendo que tinha que voltar para São Paulo (minha casa). Não conseguia partir: ora perdia a passagem, ora o horário do vôo. Foi quando encontrei com o Pete (o amor) que me disse firmemente: "Agora você tem que ir". Então, ele me levou até a entrada de um aeroporto muito precário, caótico, lotado de gente aguardando em longas filas a sua vez de partir e disse para uma atendente: "Ela tem que partir, você não consegue encaixá-la com fez com a outra senhora há pouco?". Olhei no relógio, eram 5 horas da manhã. Eu devia ter pego o vôo das 2:30 da madrugada. A atendente confirma que pode me encaixar no próximo vôo, mas fico assustada quando vejo que desconheço a companhia aérea. Um outro senhor (protetor), então, me alerta: "A senhora pode voar pela UNESCO, pois a senhora tem pontos a receber pela ajuda que já prestou a eles". Aceitei a sugestão e olhei insegura para o Pete pedindo aprovação. Seu olhar é claro e firme ao me dizer: "Vá, agora você tem que ir. É a sua chance". Então, nos abraçamos e nos beijamos conscientes de nosso amor e que estávamos definitivamente nos despedindo. Minha força para seguir em frente vinha da certeza de que era a hora de partir. No corredor que levava ao avião, encontrei duas senhoras gordas sentadas numa pequena cabine comentando: "Toda vez que este Lama Gangchen passa por aqui faz a maior confusão" (desprograma o óbvio). Naquele momento, ri internamente: compreendi que Ele já havia passado por ali e preparado o que fosse necessário para tudo estar bem durante minha viagem. Olho para as senhoras e pergunto: "E agora?". Elas riem e me respondem: "Ah, agora ninguém sabe, esse é o vôo do desconhecido". Acordei e logo pensei: sonhei com a minha morte.

Você já vivenciou a realidade da sua morte? Um acidente de automóvel, o susto do diagnóstico real ou suspeito de uma doença grave, um assalto, ou uma pane no avião. Os sustos que nos lembram que a morte existe são como rituais de iniciação, pois depois deles sabemos que um dia vamos morrer.

Sua Santidade Dalai Lama diz que visualiza, todos os dias, a sua morte e seu renascimento oito vezes para estar preparado quando ela chegar. No budismo, há práticas de meditação que reproduzem os estágios pelo qual passamos no processo de morrer e renascer. Aliás, graças à realização destas práticas é que os Lamas são capazes de, antes de morrer, deixar cartas e sinais sobre onde vão renascer em sua próxima vida.

Para nós, ocidentais, tudo isso é um mistério. Mas, o fato de poder meditar sobre o processo de nossa própria morte nos ajuda a criar maior proximidade conosco mesmos, assim como confiar em nossos instintos, quando temos que andar no escuro.

A sensação frente à realidade da morte será sempre única quando ela, de fato, chegar. Ao compartilhar a proximidade da morte com meus pacientes, testemunho o quão particular e único é este processo.

A morte é uma experiência muito difícil se estivermos despreparados para lidar com ela. Abandonar tudo que é familiar já gera vulnerabilidade. Por isso, quanto mais familiarizados estivermos com nosso mundo interior, melhor enfrentaremos o desconhecido. Quando não podemos mais nos apoiar no mundo exterior, contamos apenas com nosso eixo de segurança interna.

Foi o medo da morte que me levou a trabalhar com pacientes terminais. Em 1988, uma intensa experiência pessoal me fez refletir profundamente sobre minha mortalidade. Já havia encontrado Lama Gangchen Rinpoche um ano antes. Ao experimentar uma profunda solidão diante do medo da morte, decidi dar um novo rumo à minha vida: superar a resistência de lidar com a minha própria mortalidade e ajudar os outros a se sentirem menos solitários frente à morte.

Quanto mais tentamos fugir de um medo, mais ele cresce. O medo da morte é o resultado do tabu que a envolve. Se tivéssemos mais familiaridade com a própria idéia da morte, não a veríamos sob o manto da tragédia.

De modo bem mais profundo e sutil, o medo da morte deriva da idéia - ilusória - de um Eu permanente e de existência inerente. E, mais do que os objetos, pessoas ou situações, é este Eu que tememos ver aniquilado com a morte. Assim, o medo da morte surge como uma atitude defensiva egóica frente a essa desintegração.

A morte nos faz pensar na vida. Ao darmos um significado à nossa morte, encontraremos uma nova perspectiva para nossa existência. No entanto, não basta refletir filosoficamente sobre a morte, é preciso familiarizar-se com ela positivamente.

A consciência da morte nos ensina a desfrutar a vida com mais intensidade e, ao mesmo tempo, de maneira menos dramática. Se encararmos com naturalidade o fato de que somos mortais, valorizaremos muito mais cada momento da vida.

No entanto, nos distanciamos cada vez mais do processo natural de morrer. A medicina atual, ao pretender superar os limites da natureza, olha para a morte como uma derrota. Ela é vista como um fracasso profissional ou uma fraqueza da personalidade: "ele desistiu", como já ouvi inúmeras vezes dizerem.

Acreditamos que vamos morrer, mas agimos como se não tivéssemos consciência de nossa mortalidade. Acreditar é apenas uma função mental, enquanto que ter consciência envolve as demais funções de nosso ser: pensar, intuir e perceber.

Para nos conscientizarmos de algo não basta ter um entendimento intelectual, precisamos refletir além de nossas percepções racionais. Necessitamos cultivar um olhar contemplativo que pode ser conquistado por meio de profundos estados meditativos. Como por exemplo, refletir sobre as seguintes perguntas:

"Sou o corpo, ou alguma parte desse agrupamento de ossos, sangue e carne?"
"Sou minha consciência?"
"Sou algo além do meu corpo e da minha consciência?"

A compreensão da não existência de um Eu inerente e permanente nos livra de todos os medos, inclusive o da morte. Esta compreensão, no entanto, requer uma percepção muito abrangente. Enquanto não a tivermos alcançado, é importante mantermos a consciência de que tudo é impermanente para conquistarmos a aceitação autêntica de nossa mortalidade. A compreensão da impermanência não é tão difícil de atingir quanto a da vacuidade, por exemplo.

Precisamos refletir tanto sobre a impermanência grosseira quanto sobre a sutil. A impermanência grosseira é evidente: podemos observá-la todos os dias em nosso próprio corpo. A impermanência sutil, no entanto, exige uma maior compreensão da realidade futura: incluir a não existência futura na atual existência. Assim como quando acendemos um incenso damos início à sua não-existência, quando somos concebidos damos início ao nosso processo de morte.

Se adquirirmos o hábito de refletir sobre a impermanência, buscaremos naturalmente nos dedicar a vida espiritual, pois deixaremos de ficar sobrecarregados pela densidade da vida mundana. Neste sentido, pensar sobre a morte nos ajuda a viver melhor. O budismo nos aconselha a pensar, pelo menos três vezes ao dia, sobre a morte.

Lama Gangchen nos alerta: "Se pensarmos na morte agora, no momento em que ela acontecer de verdade, poderemos morrer em paz e sem arrependimentos. Meditar sobre a morte é um processo de cura, pois nos faz enfrentar nossa recusa, raiva e depressão, até finalmente chegarmos a um estágio de aceitação e paz interior. É melhor fazermos isso agora, antes que uma doença terminal apareça, pois, caso isso aconteça, corremos o risco de não ter tempo suficiente para aceitar psicologicamente nossa morte, morrendo então com a mente cheia de medo e raiva, justamente o que desejamos evitar".


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